Há cerca de dois anos, despedi-me destas páginas e, acreditei eu, da própria literatura. Ateei fogo em minha gaveta de ideias, num rito de passagem que buscava o silêncio. Mas a vida, em sua teimosia poética, provou que posso sair da literatura, mas a literatura jamais sairá de mim.
E hoje, volto ao solo sagrado do Imparcial para narrar um nascimento — o meu — e a história de um homem que usava o branco não apenas como uniforme, mas como estandarte de dignidade: o Dr. José Jesus Victório Rodrigues.
O médico que me fez nascer duas vezes
Muitos em Monte Alto lembram-se dele como o prefeito respeitado ou o médico incansável que, mesmo no topo da vida pública, jamais deixou de atender seus pacientes. Para mim, porém, ele foi o primeiro homem a me “ferir” para que eu pudesse respirar.
Eu nasci com quase cinco quilos (4.950kg, para ser exata), um desafio hercúleo para um parto normal. Eu era um bebê grande demais para os contornos do momento, e acabei “entalada” entre a vida e o abismo. Foi o Dr. José Rodrigues quem, com a precisão de quem sabe que a dor às vezes é o preço da existência, quebrou a minha clavícula para me tirar dali. Aquele “estalo” foi o meu primeiro grito de liberdade.
Anos mais tarde, esse mesmo médico-prefeito, que nunca abandonou o branco da medicina pela zona de conforto do poder, salvou-me pela segunda vez. Em nossas conversas, ele percebeu que o meu coração já não cabia nos limites geográficos de nossa cidade, que, apesar de nascida de um sonho, já não comportava os meus.
Escreva muitos livros!
Com o mesmo vigor com que quebrou meu osso ao nascer, Dr. José me deu o “pontapé’ necessário: numa conversa, em frente da redação do Imparcial, ainda na 15 de Maio, ele aconselhou-me a ganhar o mundo, a buscar São Paulo, conquistar novos horizontes: “Minha filha, vá atrás dos seus sonhos. Escreva muitos livros e faça a nossa cidade se orgulhar de você! Leve Monte Alto aonde você for, mas, vá. Porque, se ficar aqui, pequena, acanhada, a dureza da vida vai acabar aniquilando você.”
E assim fiz. Aos 25 anos, com uma fratura na alma por deixar minha família, meus amigos e a cidade que me viu nascer, eu “parti sem olhar pra trás, pois se olhasse, eu sabia, não poderia sair daí nunca mais”, levando na bagagem apenas o vir a ser, deixei para trás as dores do que tinha sido, como começar trabalhar de empregada doméstica na casa de uma professora aos dez anos de idade, trocando as bonecas pela servidão. (Felizmente, hoje os tempos são outros, e em nossa cidade já não há exploração do trabalho infantil; professoras defendem as crianças disso, em vez de levá-las para trabalhar em sua casas).
O gesso da sobrevivência
Na fratura da primeira infância, fiquei 40 dias enfaixada, com o braço direito preso por ataduras junto ao corpo, cobertas por uma camada de gesso. Uma tortura para um bebê recém-nascido, que quer explorar o mundo com as mãos.
Na fratura da vida adulta, mais uma vez o braço ficou preso junto ao corpo pelo gesso da sobrevivência. As ataduras que me prenderam foram o Metrô de São Paulo e a Caixa Federal, o ganha-pão que garantiu o sustento e a educação do filho.
Mas, como um “parteiro de destinos”, o Dr. José Rodrigues previu a escritora antes mesmo de o livro ser escrito, garantindo que eu tivesse a coragem de transformar as tristezas, a labuta e as memórias de Monte Alto em literatura. E, assim como ele garantiu à minha mãe que eu não teria sequelas pela quebra da clavícula, a convicção de seu conselho garantiu que eu libertasse a mão da escrita do gesso que a oprimia.
No sem-pressa do existir
Com as mãos e alma livres, realizei o sonho de entrar na USP, e nas torres de marfim da academia descobri que a minha literatura é da palavra lascada e não do verbo polido, ela nasce do chão batido e do suor da lida e não do mofo das teorias.
No sem-pressa do existir, depois de virar “bixo” da Fuvest aos 40, encontrei o grande amor e me casei aos 50 e agora, aos 60, volto à minha terra natal para anunciar o lançamento de uma trilogia na qual muitas histórias têm Monte Alto por cenário.
Doces Memórias
Enquanto escrevo este artigo, deixo que meus pés toquem o mesmo chão pisado pelos Titanossauros, sinto a irregularidade dos paralelepípedos da Rua Nhonhô do Livramento antes da camada asfáltica, e me recordo da crocância dos pães da Padaria Delícia. Encanto meus olhos com as belas vitrines do Lojão da Cidade e respiro a nostalgia da lembrança dos Cines Guarani e São Jorge, da Farmácia da Escada e do inigualável pastel do Carlos Murakami.
Viro na Rua Carlos Kielander, passo em frente da Santa casa de Misericórdia, onde fui quebrada pela primeira vez, e sigo tranquila até o nº 711, sentindo o aroma do doce de goiaba da Dona Joana Collatrelli. A tímida casinha branca da esquina, palco de tantas memórias, já não existe, mas o cheiro do chapéu do meu pai permanece lá, inalterado, assim como a lembrança de meu amigo Alberto, que vinha me visitar todas as tardes e me ensinava o encanto dos voos da imaginação.
O Dr. Rodrigues partiu há anos, mas seu legado de respeito e seu compromisso inabalável com o outro permanecem vivos. Ele me ensinou que ser dura — seja na lida da vida ou na honestidade do texto — é a única forma de ser verdadeira, mas, por baixo da dureza há um derretimento sem fim, que eu venho partilhar com vocês, convidando-os para conhecer a Trilogia do Chão, que começa com o relançamento do meu livro de contos O chapéu de Alberto, em sua 3ª edição, seguido pelo Trópico de Capricórnio e pela A noiva do Calango.
Este livro pode ser lido gratuitamente pelos clientes Kindle na Amazon este fim de semana (promoção válida até 17 de março). É só acessar o link www.amazon.com.br/dp/B0GS55LQM2 para conhecer o ebook ou o livro físico.