Tenho percebido, ultimamente, alguns murmúrios sobre a nova onda de leitores que está surgindo. Eu a enxergo com bons olhos, visto que vivemos numa sociedade que tem o conhecimento em mãos e de fácil acesso, mas não usufruiu da forma como deveria. A geração de hoje nunca sentirá o peso de uma “ barsa” e o cheiro que tem uma biblioteca municipal. Com o avanço da tecnologia, a sinestesia do peso e do cheiro do conhecimento se degradou ainda mais. Todavia, não posso afirmar que houve uma perda absoluta — talvez estejamos diante de uma ressignificação do ato de ler.
O leitor contemporâneo já não se prende, necessariamente, ao silêncio solene das estantes ou à linearidade das páginas impressas. E isto tem causado a perda de um lado afetivo e memorável para a construção do conhecimento. Antes, a biblioteca das escolas era um espaço para os encontros de leitura; hoje, um refúgio para escapar da busca do conhecimento. Cientificamente, os males que o excesso das telas traz à sociedade tem gerado preocupação nas instituições de ensino e família. A saída para o vício das telas começa na iniciação pela leitura, pela arte e pela música. A leitura precisa deixar de ser vista como obrigação e passar a ser experimentada como descoberta, como ferramenta de autonomia e de construção de identidade.
Há movimentos espalhados pelo mundo que estão mudando o comportamento e estão deixando seus aparelhos de lado. A leitura, aos poucos vai retomando os espaços que ocupava antigamente. Vai construindo pequenas sociedades leitoras que estão disseminando o gosto e a importância do ato de ler. Entre o peso das antigas enciclopédias e a leveza dos dispositivos digitais, há um caminho a ser construído. Não se trata de escolher entre o passado e o presente, mas de compreender que o verdadeiro valor da leitura não está no suporte, e sim na capacidade de transformar o sujeito que lê. Para que isso aconteça, é necessário que se abra os olhos para a realidade de uma sociedade enferma e desprovida de intelecto. Não precisamos chegar ao fundo do poço para enxergar a enfermidade social e cognitiva que estamos enfrentando. A partir do momento em os olhos são abertos, enxerga-se a luz. O brilho da esperança nos coloca no mundo dos livros e nos constrói leitores. Está acontecendo!