De repente, todo mundo ficou doente

De repente, todo mundo ficou doente. Todo mundo tem uma síndrome, um pequeno espectro, um distúrbio ou qualquer outra doença moderna. Parece-me que romantizaram as doenças do século. As pessoas estão culpando suas falhas, seus vícios e suas procrastinações em laudos gerados por elas mesmas, enquanto famílias se desdobram para vencer uma luta diária com aqueles que precisam de atenção permanente no dia a dia. Esta medicalização excessiva da vida cotidiana distorce a fronteira entre o que é humano e o que é patológico. Creio que estamos diante de uma fabricação de doenças que não existem dentro de alguns indivíduos.

O autodiagnóstico sem respaldo profissional tem aprisionado as pessoas dentro de seus lares, dentro do seu eu, das redes sociais e tem se escondido da imensidão do mundo. Medo de viver ou viver com medo? O pior é que essa cultura de “todo mundo estar doente” banaliza, como dito anteriormente, as condições sérias e o verdadeiro sofrimento — inclusive familiar, como acontece com pessoas que exigem cuidados especiais. Para essas famílias, o rótulo de doença não é moda nem atenção momentânea: é uma realidade exaustiva, contínua, desgastante emocionalmente e financeiramente. A obsessão por “síndromes modernas” acaba trivializando essa realidade, reforçando uma cultura de minimização e competição por sofrimento — enfraquecendo, paradoxalmente, quem realmente precisa de suporte. A crítica não se limita a rótulos inócuos; reflete um desgaste cultural: reduções clínicas, proliferadas em redes, programas populares e campanhas de marketing, acabam por desvalorizar o que é emocionalmente legítimo e socialmente construído. Somos todos, repentinamente, pacientes — em vez de seres com direito ao equilíbrio, às flutuações e às complexidades próprias de viver.

Em síntese, romantizar a doença como identidade é uma fuga. É dar voz à doença como justificativa para falhas pessoais e coletivas, enquanto degrada o valor real da experiência das pessoas que, de fato, vivenciam necessidades médicas ou educativas permanentes. Trata-se de um desvio cultural que merece ser questionado com urgência e sensibilidade — pois, no fundo, banalizar a doença é empobrecer a solidariedade e a compreensão genuína que ela deveria inspirar.