E se os políticos ganhassem como professores? Teríamos candidatos? E se os professores ganhassem como políticos? Teríamos mais educadores? São perguntas incômodas porque não discutem apenas dinheiro. Elas revelam aquilo que uma sociedade decide valorizar. Imagine, por um instante, que os salários dos políticos fossem equivalentes aos dos professores. Será que continuaria existindo tanta disputa por cargos públicos? Será que o interesse pela política permaneceria o mesmo? Quantos ainda estariam dispostos a enfrentar campanhas, exposição, críticas e longas disputas eleitorais se a recompensa financeira fosse semelhante àquela recebida por quem passa décadas dentro de uma sala de aula?
Agora invertamos a pergunta. E se um professor recebesse uma remuneração compatível com a responsabilidade que carrega? E se sua formação fosse permanentemente valorizada? E se preparar uma aula, corrigir atividades, acompanhar dificuldades, lidar com conflitos, orientar jovens e participar da construção de cidadãos fosse reconhecido como uma das tarefas mais importantes de uma sociedade? Teríamos mais professores? Talvez a questão mais profunda não seja saber se haveria mais candidatos ou mais educadores. A pergunta deveria ser: o que estamos dizendo sobre nós mesmos quando escolhemos quem merece ser valorizado? Um político administra interesses públicos durante um determinado período. Um professor, entretanto, participa da formação das pessoas que futuramente ocuparão todos os espaços da sociedade — inclusive os espaços de poder.
O professor ensina aquele que poderá se tornar médico, engenheiro, empresário, trabalhador, cientista, artista, servidor público ou político. Há, portanto, uma ironia silenciosa: muitas vezes, quem forma aqueles que decidirão os rumos do país recebe menos reconhecimento material e social do que aqueles que posteriormente ocuparão os cargos para os quais foram preparados. Não se trata de afirmar que políticos não devam ser remunerados adequadamente, nem de transformar professores em heróis sacrificados. Trata-se de questionar uma lógica social na qual determinadas funções parecem receber reconhecimento muito maior do que outras, apesar de todas dependerem, em alguma medida, da educação. Em vez de perguntar “por que faltam professores?”, deveríamos perguntar “o que estamos fazendo para que ensinar continue sendo uma profissão desejada?”
A resposta talvez revele muito mais sobre as prioridades de uma sociedade do que qualquer discurso eleitoral. Porque, no fim, políticos passam. Professores permanecem. E, muitas vezes, aquilo que um professor ensina em uma sala de aula continua produzindo efeitos muito depois que o mandato de um político termina.