Em meio ao caos, o curioso mórbido

Eu sempre defendi que a escola não deveria trabalhar apenas conteúdos ligados à literatura, matemática, geografia. É preciso ir muito além do pedagógico dos livros didáticos. O que falta na escola é humanidade, empatia, respeito. Outrora, esses quesitos eram ensinados em casa. Sabemos que as gerações mudam, os comportamentos são outros e que as famílias já não são mais as mesmas. Há tempos que venho percebendo um comportamento cultural que ocorre quando estamos velando alguém e que, pelo que me recordo nunca fora trabalhado em sala de aula: o curioso mórbido. A falta de empatia e da ética é o outro desafio a ser enfrentado pelas famílias quando estão no momento doloroso.

Este indivíduo, o curioso mórbido – é aquele que comparece ao velório não apenas para expressar condolências, mas para observar o corpo, saber detalhes da morte ou comentar sobre as circunstâncias do falecimento, ocasionando um total desrespeito à família e amigos. Essa curiosidade, embora muitas vezes silenciosa, pode gerar situações constrangedoras devido a perguntas indiscretas. Por aqui, o velório acaba, em certos casos, tornando-se um ponto de encontro motivado mais pela curiosidade do que pelo sentimento de solidariedade. Parte desse comportamento também pode ser explicada pela falta de formação social sobre o luto e o respeito ao funeral. A escola, que tem papel importante na formação ética e cidadã dos indivíduos, raramente aborda temas como a morte, o luto e os rituais de despedida.

Em geral, a educação formal concentra-se em conteúdos acadêmicos e deixa de lado discussões fundamentais sobre convivência social, empatia e respeito em momentos delicados da vida. O funeral não é um espetáculo nem um evento social comum; trata-se de um ritual cultural de despedida, destinado principalmente a oferecer conforto à família e permitir que amigos e parentes prestem suas últimas homenagens. Sem essa compreensão, algumas pessoas reproduzem comportamentos inadequados, como comentários impróprios, fotografias ou perguntas invasivas.

É preciso dar um basta nesta cultura através de campanhas de conscientização nas escolas e redes sociais. O curioso mórbido está mais interessado na sua dor do que o conforto do nosso coração. A curiosidade nunca será bem-vinda quanto estamos nos despedindo de alguém. Respeito e empatia devem ser primordiais. Que assim seja!