Escrita à mão

Fala-se muito em inteligência artificial e a sua evolução e que o mundo viverá somente das novas tendências tecnológicas. Eu creio numa tecnologia que possa ajudar na evolução da medicina, do trabalho, do progresso, mas temo o dia que ela tiver que substituir a interação social, o afeto, a companhia e principalmente a escrita. É fato a perda de interesse pela caneta e pelo papel. Trata-se de causa e consequência. Se somos um país de não leitores, nunca seremos um país apaixonado pela escrita. A sociedade perdeu o interesse pelos pequenos recados escritos à mão, pelos bilhetes, pelas cartas de amor. Os poetas e escritores estão escassos. Fico imaginando quem serão as referências literárias que as pessoas terão daqui a duzentos anos.

Não podemos considerar arte literária feita por uma máquina e nem podemos assinar em nome dela. A escrita é subjetiva e requer sensibilidade, sentimento e sofrimento. Nada do que escrevemos é em vão. A alma dita o que deve ser ortografado. Máquinas não têm e nunca terão alma. Elas replicam o conhecimento desenvolvido pelo homem, mas nunca entenderão o sofrimento e a emotividade deste mesmo homem. Se existe uma inteligência artificial é porque existiu o conhecimento de um homem que produziu conteúdos que fizeram a humanidade avançar nos campos da ciência, arte, política e literatura. Pelo rumo que o mundo vem tomando, alimentando-se de futilidades, futuramente, a própria inteligência artificial não evoluirá, porque a base do conhecimento produzida pelo homem se tornou escassa. Um homem que não lê e não busca conhecimento não conseguirá produzir conhecimento. É ai que o mundo estagnará.

Ler e escrever são o básico da comunicação humana. A escrita é uma forma de expressar os nossos “eus” que gritam pelo nosso corpo, alma e coração. É remédio. Salvação. O homem, que escreve para si, cura-se; o homem que escreve para o outro produz emotividade. Cada palavra ortografada com sentimento é uma forma de expulsar a dor que nos incomoda e a tristeza que nos consome. Se a sociedade soubesse o poder que um diário tem não precisaria de terapia. Escrever é fazer uma auto-observação. É enxergar e analisar as mudanças que passamos ao longo do tempo. É deixar a nossa marca num pedaço de papel.

Escrever é terapia.