Eu tenho seis dedos

Não é novidade para muita gente que me conhece que eu tenho polidactilia. Trata-se de uma condição em que a pessoa nasce com mais de cinco dedos nas mãos ou nos pés. É uma anomalia congênita comum, porém traz certa estranheza para muita gente. Eu tenho um dedo a mais no dedão da mão esquerda. As pessoas sempre me perguntam se isso atrapalha, ou se incomoda ou se eu sofri “ bullying” na época da escola. Confesso que passei por determinada complexidade num curto período de tempo. Todavia, tive uma educação muito forte sobre a minha condição. Minha mãe sempre me falava “Seja grato. Você é privilegiado. Há pessoas que não enxergam, não falam, não escutam, não andam, não tem os pés ou braços. Existe sempre um problema pior.” Essas palavras ecoaram por toda a minha infância. Fiz da minha anomalia uma verdadeira aliada.

Cansei de contar as minhas histórias sobre o privilégio de ter polidactilia. A mais clássica é: nunca perdi no par ou ímpar. Minhas vivências renderam boas histórias no mundo da literatura. Consegui um segundo lugar num concurso de contos pela revista “Farol Fantástico” com um conto intitulado de “ O menino de seis dedos” . Depois, fui selecionado para uma antologia de microcontos de humor na cidade de Sorocaba com o título “ O curioso caso de Edward”.Eu poderia citar várias outras histórias por aqui, mas me falta espaço nestas laudas que seguem. Eu poderia simplesmente tentar esconder minhas diferenças físicas ou tentar evitar comentários sobre minha anomalia. Eu sou ele e ele sou eu. Não tem como negar a minha história, a minha essência e a importância que tudo isso teve na minha vida. Eu apenas aceitei, entretanto, antes da minha aceitação, eu fui conduzido através do amor e da empatia.

Vivemos tempos sombrios com a exposição demasiada em redes sociais e com os inúmeros casos de bullying. Os tempos são outros e a fragilidade moderna tem aumentado significativamente a complexidade física de crianças e adolescentes. Por isso que o diálogo é primordial nessas situações. É preciso deixar claro para aqueles que se sentem diferenciados devido a certa anormalidade física e aparente que ninguém é igual a ninguém. Fiz do “ meu privilégio” a minha marca. Eu poderia muito bem arrancá-lo da minha mão. Não o farei, é claro. A minha aceitação vai muito além das piadas e comentários. Não quero romantizar a situação. A aceitação depende muito do tipo de educação que se dá ao outro. Felizmente, fui educado na empatia, no amor e na superação. O corpo perfeito só existe na arte greco-romana. Só existe no mundo artístico. Eu faço a arte da escrita e da música com a mesma mão que tem seis dedos. Dedo privilegiado que testemunhou muita criação poética e ouviu as mais lindas canções, formações de acordes e melodias. Tem muita mão de cinco dedos por ai, ou até menos, que vive a atravancar os nossos caminhos, sonhos e que prestam um desserviço à sociedade.