Há tempos que venho falando sobre a futilidade das redes sociais e o tanto que crianças e adolescentes – adultos também – têm consumido o nível mais baixo de conteúdos inúteis dentro delas. A cada mês é uma expressão que surge, uma dança, uma trend. E assim vai brotando um brain rot atrás do outro. E assim vai o cognitivo apodrecendo aos poucos. O que me assusta é a quantidade de comprovações feita pela ciência alertando sobre os perigos do consumo excessivo das telas, jogos e qualquer atividade ligada ao celular, que são ignorados pela família. Quando olho para o comportamento atual de muitos jovens, percebo uma dificuldade crescente de concentração, uma impaciência diante de conteúdos mais longos e uma dependência quase automática de estímulos rápidos. Isso não surge do nada. Pesquisas recentes apontam que o consumo excessivo de conteúdos digitais fragmentados — como vídeos curtos e redes sociais — está associado à redução da atenção, ao cansaço mental e até à piora no desempenho cognitivo.
Eu não posso ignorar um dado particularmente alarmante: há evidências de que o excesso de tempo de tela pode afetar estruturas do cérebro. Estudos indicam que isso pode levar ao afinamento do córtex cerebral — área responsável por memória, tomada de decisão e raciocínio — além de redução da massa cinzenta. Quando leio isso, fico pensando: que tipo de inteligência estamos cultivando?
Ao mesmo tempo, vejo que não é apenas uma questão biológica, mas também cultural. O chamado brain rot tem sido descrito como o resultado da exposição contínua a conteúdos “triviais ou pouco desafiadores”, uma espécie de “junk food mental” . E essa metáfora é extremamente precisa: assim como o corpo adoece com uma alimentação pobre, a mente também se enfraquece quando se alimenta apenas de superficialidade. Sinto que há uma perda silenciosa acontecendo — não neces-sariamente da inteligência em si, mas daquilo que sustenta o pensamento crítico: o tempo, o esforço e a profundidade. Pensar exige pausa. Exige desconforto. Exige concentração prolongada. E tudo isso vai na contramão da lógica dos conteúdos rápidos que dominam o cotidiano digital.
Ainda assim, não acredito que seja um caminho sem volta. A própria ciência indica que esses efeitos podem ser revertidos com mudanças de hábitos, como redução do tempo de tela e estímulos cognitivos mais ricos. Isso me faz pensar que a questão não é a tecnologia em si, mas a forma como a utilizamos. Fica aqui uma reflexão com uma inquietação pessoal: se continuarmos consumindo apenas o que é fácil, rápido e superficial, estaremos abrindo mão, pouco a pouco, daquilo que nos torna verda-deiramente humanos — a capacidade de pensar profundamente.