Todo ano, quando o vento anuncia outubro, as escolas brasileiras parecem acordar para um tipo muito específico de entusiasmo. De repente, portas de salas viram castelos mal-assombrados, corredores se enchem de morcegos de cartolina e avisos coloridos anunciam concursos de fantasias. O “Halloween” chega — e chega com honra, pompa e prioridade. Chega iluminado. É curioso ver a energia mobilizada para uma celebração que não faz parte da nossa história, da nossa formação cultural, das nossas tradições comunitárias. Ainda assim, ela reina quase absoluta.
Todavia, basta virar o mês para que a contradição se revele. 20 de novembro se aproxima, e com ele o Dia da Consciência Negra. E então, subitamente, toda aquela criatividade vibrante parece evaporar. O entusiasmo se transforma em silêncio e a festa — que deveria ser profundamente nossa — aparece embrutecida, comprimida entre calendários, relatórios finais, provas e justificativas prontas. A escola, que correu para comprar abóboras de plástico, não encontra tempo para falar de Luiz Gama, Dandara, Carolina Maria de Jesus, Lélia Gonzalez, Mãe Stella de Oxóssi, Zumbi dos Palmares ou Abdias do Nascimento. A instituição que ensina sobre bruxas não ensina sobre Orixás. A mesma que organiza caça aos doces não apresenta o maracatu, o samba de roda, o batuque, o jongo, o candomblé, o axé, o afoxé. E não se trata de falta de material.
Celebrar a Consciência Negra exige enfrentar a realidade incômoda de um país que insiste em negar seus próprios fundamentos. A verdade é dura e antiga: o Brasil ama a estética do estrangeiro porque tem medo de reconhecer sua própria ancestralidade negra. A escola reproduz isso com a naturalidade de quem nem percebe o erro. É assim que se cultiva, com delicada persistência, a anticultura afro-brasileira: não proibindo explicitamente, mas apagando; não atacando diretamente, mas negligenciando; não destruindo de frente, mas enfraquecendo pela omissão. A anticultura não se faz com violência evidente — se faz com silêncio, com indiferença, com escolhas pedagógicas que dizem, sem dizer, que certas histórias importam menos que outras.