“QUASEMORTE” – INTRODUÇÃO
Todos os domingos à tarde, a turminha de moleques, de 13 a 16 anos, descia à margem de um córrego para nadar. O local era chamado de poça, era redondo, formado pela curva de dois pequenos córregos, media cerca de seis metros de diâmetro e tinha entre três a quatro metros de profundidade. Mesmo para quem não sabia nadar, o local não oferecia perigo. Dois ou três moleques estavam dentro da água quando eu pulei para atravessar nadando, a distância era o máximo que eu conseguia atravessar com três braçadas, estava no meio quando senti-me afundando, ao mesmo tempo, senti que alguém me agarrava pelos ombros e me atirava para cima, em direção à margem. O gesto se repetiu três vezes, até que senti-me sobre a grama, desmaiado ou coisa que valha.
“QUASEMORTE” – FALTA DE AR
Senti-me sufocado por alguém pressionando meu tórax, quando surgiu-me à frente um telão tendo como fundo a imagem da minha mãe. Sobre a imagem fixa corriam em velocidade na vertical imagens menores de coisas acontecidas no passado comigo e pessoas diversas, como por exemplo, um jogo de futebol em um campinho, uma corrida com diversos moleques numa rua não identificada, um velório de um caixão vazio, uma luta de boxe entre dois adolescentes, um piquenique com meninos e meninas de vários tamanhos tendo um lago ao fundo, um pasto com vários animais entre vacas, carneiros, galinhas e cavalos, eu fazendo aniversário com pessoas cantando uma música estranha, um grito de socorro ao lado de um corpo desmaiado, e de repente, um clarão se abriu na minha frente e fiquei de pé com todos os presentes batendo palma, gritando “ele tá vivo, ele tá vivo”. Sentei-me na grama chorando e a molecada me contando quanto tempo fiquei naquela situação, disseram-me por alguns segundos e eu me debatia repetindo: quero minha mãe… quero minha mãe!
O tempo corrido parecia de anos, o local que eu me sentia era semelhante a uma nuvem clara, com banquinhos de cimento e cadeiras de pedra, com mulheres e homens adultos vestidos de anjo com tecidos esvoaçantes de cor branca e chapéus azuis. Segundo as fontes consultadas, eu estive no Céu!
“QUASEMORTE” – CIENTÍFICA
Segundo a medicina, a “quasemorte” não existe, ou é morte ou é vida. O que acontece nos casos iguais aos meus é a falta de oxigenação no cérebro devido ao afogamento, que provoca uma espécie de letargia (um efeito anestésico).
A informação do médico sobre o fenômeno foi breve e sucinta: “você não teve uma ‘quasemorte’, teve uma ‘quasevida’ – que continua “ad eternum”. Em outras palavras: “tô ferrado”, tenho um trauma de água. Não nado!
RISONHA E FRANCA
Nas férias escolares de julho, no meu tempo, havia lição de casa, a popular tarefa, um caderno inteiro de caligrafia, e quem não o preenchia, ganhava um zero. Um livro para ler inédito, geralmente um Machado de Assis, tinha que ler e fazer um trabalho resumido. Depois de 30 dias a volta às aulas, 30 não, entre 36 e 38 – até o fim da Festa de Agosto. Mesmo que as aulas voltassem nos 30 dias, ninguém comparecia. As escolas de Monte Alto eram invejadas por isso.
DOCES E SALGADOS
Um proprietário de bar fazia coxinhas deliciosas, vendia muito, ele as deixava na estufa para ficarem quentes, força de hábito, sempre havia fregueses que perguntavam se as coxinhas eram daquele dia. Sem perder a paciência, porém, aborrecido, o comerciante não deixava barato, respondia: “olha o prazo de validade”.
Outro freguês, que conhecia o humor sarcástico do dono do bar, não perdia a oportunidade de uma rara gozação. Ele perguntava se no bar tinha cerveja quente. Com a resposta positiva, ele concluía: “então coloca na geladeira porque ninguém quer cerveja quente”.
MONTE ALTO IN FOCO
Um comerciante, dono de um armazém/mercearia, à tarde costumava receber vários donos de lojas do comércio para tomarem cervejas. Juntavam sempre de cinco a dez clientes. Todos conversando vários assuntos, de repente, a porta do estabelecimento, que dava acesso à residência do comerciante, abria e a esposa dele colocava o rosto no vão aberto, perguntando: “querido, você vai me usar hoje?” Se ele respondia ‘sim’, ela estrava e ia ao banheiro para lavar as partes. Caso a resposta fosse ‘não’, ela entrava, providenciava o jantar sem precisar lavar nada. (o verbo usar que ela empregava era manter relações sexuais).
REFORÇO GRAMATICAL
Li dia desses um informe de jornal de uma instituição que grafava: nossos sinceros pêsames. Bastava apenas grafar: nossos pêsames. Se é um desejo de pesar, pressupõe-se que seja sincero. Ninguém vai desejar pêsames de mentira! O mesmo se observa ao se desejar felicidades. Não se diz sinceras felicidades. Também não se diz parabéns mesmo. Ora, se desejar parabéns é o bastante, com o mesmo, dá-se a impressão que, sem o mesmo, o parabéns está incompleto.
ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA
Lá no final da década de 1970, houve um roubo a mão armada numa residência de Monte Alto. A Polícia Civil investigou e os ladrões foram presos. A vítima, uma senhora, foi chamada para o reconhecimento dos suspeitos, o delegado improvisou um local onde a vítima via os suspeitos e eles não viam a vítima. Para ter certeza do reconhecimento, o delegado colocou dois suspeitos, um detento de outro processo e um investigador, no total de cinco pessoas. A senhora olhou para todos por uma fenda na parede de madeira e apontou o ladrão, era o número cinco. Para surpresa do delegado, o número cinco era o investigador. O caso virou piada; se fosse hoje, as redes sociais fariam a festa!
LÓGICA ULULANTE
Se uma casa é mal assombrada é porque a assombração é incompetente, se fosse competente, a casa seria bem assombrada.
FRASES
“Eu sirvo até de adubo para minha terra, mas dela não saio”. (Cacique Samado Santos, índio Pataxó).
“A união do rebanho obriga o leão a ir dormir com fome”. (De um guerreiro africano).