QUASE MORTE – EU VIVI! PARTE UM
Dois pequenos córregos se cruzam. A vazão do encontro permite que a formação de um poço aconteça, com um diâmetro de 8 metros e uma profundidade de 3 metros, em média. O suficiente para um nadador atravessá-lo com quatro braçadas e para quem não nada nada, um convite para se afogar.
Foi o que aconteceu comigo, em uma tarde ensolarada, convidando a turminhade sempre, seis moleques, a curtir a água limpinha e morna. Todos pulavam e atravessavam em um folego só, confiando nos que estavam dentro da água eu pulava, dava as braçadas desajeitadas e quando não conseguia alcançar a margem oposta, sempre havia alguém para dar um empurrãozinho.
Essa era a rotina de quem não tinha o que fazer nas tardes diárias, a média de idade era de 14 anos, ainda ninguém trabalhava, as tarefas eram nadar onde não podia, furtar frutas nos pomares alheios e, repito, nadar perigosamente nos açudes e represas da região.
QUASE MORTE – EU VIVI! PARTE DOIS
Confiante, pulei de olhos fechados. No meio da travessa senti que a perna esquerda parou e me puxava para o fundo. Fiz um gesto de socorro, as duas mãos agitadas para quem estivesse mais perto, estava o Nivaldo, ótimo nadador e físico de atleta. Senti que ele me jogava para cima, fora da água.
Senti a primeira vez, depois a segunda e na terceira já estava em terra firme, outros moleques ajudaram a deitar-me no gramado seco no sol. Devo ter desmaiado, vislumbrei os moleques me olhando lá de cima em pé, eu via tudo deitado, inerte com as vozes ao longe dizendo: “acho que morreu. Não parece, ele está respirando, está sem cor, tem água saindo da boca, não vai morrer.
De repente sumiram, não vi mais ninguém, então surgiu na minha frente uma imagem do tamanho de uma tela de televisão, na época 20 polegadas.
QUASE MORTE – EU VIVI! PARTE TRÊS
A imagem congelada era a minha mãe, não a que eu conhecia, mas uma moça que ainda não era minha mãe. Enquanto ela permaneceu como pano de fundo, as imagens passavam na frente, tudo detalhado, não os fatos importantes que vivi, porém, acontecimentos sem importância, corriqueiros, como trocar um pneu da bicicleta, chutar uma bola na trave, perder uma bolinha de gude (vidro), xingar algum desafeto que aparecia e sumia, uma bronca de alguma professora, nadando em vários locais, tudo isso numa velocidade parecida com um filme solto de um rolo, outras imagens correndo na tela da TV ou no cinema. A tela com minha mãe lá, imponente, séria, sem sorrir, parecendo um anjo da guarda esperando com um vidro na mão para passar um merthiolate daqueles que ardiam na ferida do afogado. Eu, ainda lá vendo tudo. Morto!
QUASE MORTE – EU VIVI! PARTE QUATRO
Enfim, voltei. Os moleques disseram que fiquei inerte no chão por poucos minutos sem gesticular ou falar. Alguns me declararam morto. Outros falaram que eu subi nas nuvens, feito uma pipa. Teve até quem falasse que meu espírito (?) deu no pé me deixando sem anjo da guarda. Foi assim que, segundo
alguns, morri e voltei à Vida. Não vi diferença entre a morte e a vida!
SANTA MENINA IZILDINHA
A sociedade religiosa de Monte Alto precisa acordar e assumir a missão para a canonização da Menina Izildinha que passaria a se chamar Santa Menina Izildinha. Antes de tudo há que se começar pelo início, ou seja, procurar provas de milagres, não basta o depoimento de fieis relatando os possíveis milagres, são necessárias provas incontestáveis. O assunto é polêmico porque não se tem as provas necessárias para pleitear o início do processo junto ao Vaticano. Claro que é difícil, os santos novos canonizados o foram com provas narradas de milagres e mais que isso, as canonizações foram concluídas pelo trabalho social dos novos santos, tendo como fundamento os devotos que realizaram os feitos religiosos dos candidatos à santidade. Em Monte Alto é possível criar uma entidade girando em torno da fé à Menina Izildinha. Muita gente vai dizer que há pessoas que não acreditam na Izildinha e poderão boicotar todo o processo. Isso é ótimo, tais pessoas são necessárias para o sucesso do empreendimento. A contrafé é um incentivo.
OSCAR NIEMEYER
O arquiteto consagrado no Brasil e no exterior, Oscar Niemeyer, projetou uma residência em Monte Alto, ele foi construída e existe até hoje, com algumas mudanças no projeto original. Mantemos segredo do endereço em respeito ao atual morador, que não deseja, supomos, tornar-se alvo da curiosidade.
Na década de 1960, os pescadores de Monte Alto realizavam as pescarias no Rio Grande, divisa de MG/SP. Lá se encontrava o diretor de uma empresa local, o arquiteto Oscar, o ex-presidente Juscelino e outros nomes de projeção mundial. Foi quando o empresário local disse ao Oscar que tinha um terreno e queria construir uma casa. Depois de passar as medidas do lote ao arquiteto, um croqui surgiu no papel de pão da pousada onde estavam. Com os croquis na mão, em Monte Alto, o futuro proprietário construiu a casa.
MONTARIA MECÂNICA
A Polícia Militar da capital paulista é a mais bem equipada do país, além das viaturas, camburões, maquinaria pesada, armas de todos os calibres e modelos, usa motos e clones. Não se vê necessidade de manter-se uma cavalaria nas operações de rua. Soltem os cavalos!
SEGREDO TUMULAR
Lá pelos anos 1960, o Guto, então diretor do “O Imparcial” publicava um obituário resumido quando a pessoa morria (é claro!). Para isso, ele mantinha um fichário com o nome dos possíveis mortos no futuro. As fichinhas ficavam bem guardadas, com chave na gaveta. Um dia fiquei ajudando o pessoal e ao ficar sozinho na redação, resolvi checar os obituários prontos. Era em ordem alfabética, fui na vogal “0” e lá aparecia: Odair Rebonato.
Não revelei o que vi, naquele dia e nos demais, me tornei um futuro colaborador morto, ou seja, previamente morto. O arquivo foi desfeito depois de o jornal ter publicado um obituário de uma pessoa viva (ela morreu poucos dias depois).