Quando os anjos se vão

As bandas celestiais são envoltas da pureza dos anjos. Eles correm pelo infinito do firmamento sem a preocupação de se tornarem um adulto desiquilibrado e materialista. Vivem sorrindo, brincando e esquecem que existe uma terra, um chão para pisar, dor, sofrimento e um resquício de saudade. Numa visão poética sobre aonde vão os nossos anjos, eles nunca dormem, porque existe uma infinidade pueril dentro de cada coração que sofreu os horrores da doença que consumiram o seu fraco invólucro. Nós, meros terrenos, nunca estaremos prontos para a partida precoce dos nossos anjos, pois a dor que sentimos e carregamos é a mesma de viver, poeticamente, um inferno na vida terrena.

Há propósitos divinos que não entendemos o porquê estamos passando. Para que possamos entender os percalços que a vida nos coloca, é preciso se apegar à fé; apegar-se naquilo que acreditamos para que o sofrimento – daqueles que não podem, por enquanto, caminhar pelas bandas celestiais – seja amenizado com a palavra divina, com o ombro do outro e entender a efemeridade da nossa alma. É preciso entender a vida e a sua passagem. É preciso ter resiliência para que a dor não nos consuma – corpo e alma – porque a nossa dor também é sentida pelas bandas celestiais, as mesmas que residem os anjos que vão.

Trago toda essa verborragia sobre anjos e campos celestiais dentro da metáfora da vida e da arte. É preciso. Não dá para viver numa objetividade da vida. Temos que enxergar as coisas, dores e passagens da carne como se fosse uma naturalidade. É uma naturalidade. Todavia não a aceitamos porque estamos presos numa verdade que não existe: nada é infinito e tudo pode sair do nosso controle num momento que a gente menos espera. Por mais doloroso que seja toda essa verdade, há um Deus no qual temos que acreditar. Não há outra saída senão nos apegarmos à crença. Acreditar nos mesmos campos celestiais que caminham os nossos anjos é ter a certeza de que eles estão num bom lugar, seguros e sem sofrimento. Não é o suficiente, mas já basta e é o único jeito de prolongar a nossa dor.