Relacionamentos: o mito da perfeição

Relacionamentos nunca são meio a meio. A balança desequilibra, hora para o seu lado, hora para o lado do outro e nem sempre este desequilíbrio acontece na mesma intensidade e proporção.

Às vezes você se doa 70% e outro, só 30%. Às vezes, acontece ao contrário. A maior parte do tempo ambos estão ali, tentando se entender e socorrendo um ao outro. Um dia, eu socorro mais do que sou socorrida. No outro dia, é outro quem aguenta a bronca.

Se você não entender ou não aceitar isto, não se relacione. Relacionamentos precisam ser saudáveis, não perfeitos. Quem busca o relacionamento perfeito vai buscar para sempre, porque a idealização está ligada diretamente à frustração. Quanto mais você idealiza, mais se frustra. E quanto mais se frustra, mais se afasta do outro – do outro que você não entende, que você não concorda ou que você não aceita. E sem conexão não há o que mantenha um casal juntos.

Aliás, qualquer relacionamento funciona assim – as amizades, os vínculos familiares e até com os nossos colegas de convívio diário.

O que se percebe hoje em dia, e que acaba aumentando o número de separações ou mesmo de desilusões amorosas, é que o ser humano está em grande desequilíbrio e desencontro – com o outro e consigo mesmo.

Vamos falar novamente de saúde mental porque isto é a base de tudo – sem o básico disto, eu não sobrevivo nem comigo mesma, quem dirá com outra pessoa!

As pessoas se cobram demais – e consequentemente cobram do outro na mesma proporção – se frustram por muito pouco e não toleram esta frustração e estão pouco dispostas a se comprometer com o relacionamento.

Somos imediatistas, baseamos nossa vida na vida dos outros e nos preocupamos demais sobre como somos vistos e/ou julgados.

Comprometimento envolve, em primeiro lugar, o desejo real de estar junto. E, a partir disto, envolve várias habilidades emocionais como paciência, tolerância, resiliência e cumplicidade.

E o mais interessante disto tudo é que você pode escolher se relacionar ou não. E relacionamentos estáveis também são escolhas assim como escolhemos outras coisas como ter ou não filhos, fazer faculdade, morar fora, seguir carreira, enfim.

O livre arbítrio existe: você pode optar por ser solteiro, se relacionar a distância, casar, casar e morar em casas separadas, não casar. Só namorar ou ter casos esporádicos e superficiais. É o seu direito.

Assim como você pode escolher não ficar, não querer, não aceitar. Só entenda: se muda de parceiro mas nem sempre se muda de problema. Porque os problemas são inerentes à existência humana, portanto, aos relacionamentos humanos, também.

Aqui, um aparte: não estamos falando de relações tóxicas, abusivas, violentas ou mesmo de dependência emocional. Tudo isto pode, e deve, ser olhado com muita atenção e cuidado. Não estamos falando disto neste texto.

Quando se escolhe estar com alguém, se escolhe o pacote completo. Porque não há como tirar do outro o que ele é e te incomoda. Assim como o outro não nos pode tirar o que é nosso e incomoda a ele. Todos temos defeitos, manias, imperfeições. Melhorar isto para melhorar a relação precisa ser uma escolha conjunta, não só de um dos lados.

Amar é muito mais sobre lidar com o que não é bom, e mesmo assim escolher ficar, do que com o romance que gostaríamos de viver.