Seja forte, seja raiz

Nenhum mal do mundo, nenhuma dor ou qualquer outro meio de destruição emocional pode afetar uma mente que entende o caminhar da vida. Baseando-se na sua efemeridade, ela nos coloca sobre alguns paradoxos e nos apresenta determinadas escolhas. É muito comum, devido a várias circunstâncias, escolhermos o lado fraco, a melancolia e o desejo de não seguir em frente. Ficamos escravos da escuridão. Não há luz para quem se entrega à tristeza. A escolha pelo lado fúnebre da nossa existência é uma eterna procura pela chegada das indesejadas da gente. O ser humano vive numa infinda autoexploração emocional para não viver a beleza da vida que o mundo nos oferece. Escolher entre olhar para frente ou ficar preso num passado de lágrimas é traçar o próprio destino da alma, do existir e da nossa legítima essência.
No livro “ A sociedade paliativa” o autor Byung- Chul Ran aponta sobre a necessidade de enfrentar a dor que pode nos consumir com o passar do tempo. Há um trecho muito impactante que nos faz refletir sobre a importância de ver a luz quando vemos apenas a escuridão: “Quanto maior a quantidade de risos que um ser humano consegue descobrir na dor, mais profundo é esse ser humano. Não se pode rir do fundo do coração se não estava antes profundamente enterrado na dor humana.” Não há resiliência maior do que o sorriso em tempos difíceis. Sempre digo que os pretéritos não me pertencem mais. Foram ótimos professores, porém a minha existência já não tem vinculo do que fui, do que fiz ou das minhas palavras ou atitudes.
Despedimo-nos de pessoas queridas ao longo da vida. Sofremos com as perdas as quais não poderíamos sofrer. Morrer faz parte e viver é arte. Quem aceita esta dualidade já entendeu o propósito da vida: tudo vira lembranças: ou boas ou más. As boas nos deixam saudades; as más nos dão a oportunidade de não cometer os mesmos erros. Viver é caminhar entre o certo e o errado, lágrimas e sorrisos, tristeza e alegria. Devemos estar sempre armados para um confronto direto com a dor. É preciso enfrentá-la diariamente, pois é o único sentimento que nos coloca num diálogo profundo com Deus. Tudo o que é verdadeiro e sábio é doloroso. Não há outro caminho para a felicidade eterna se não aceitarmos que o viver não é apenas andejar pelas coisas boas que a vida nos proporciona. “ Sinto dor, logo existo. O mundo sem dor é um inferno do igual.” ( Byung- Chul Han )
A partir do momento em que entendemos todo este paradoxo, estamos preparados para viver. Devemos ser leves, porque a vida vai pesar no nosso existir. Ser leve, neste acaso, é aceitar o processo natural da vida. Ser forte como raiz é para poucos. Passar esta fortificação e o entendimento para outros é poesia. Sou forte e poeta. A vida me quis assim.