Todo dia é dia do professor

Eu já escrevi vários textos romantizando o Dia do Professor. Sempre coloquei o amor na frente entre outras verborragias. Entretanto, como todo ser humano, a gente amadurece e começa a perceber determinados fatores que não são condizentes com a forma de pensar e agir da sociedade. São duzentos dias letivos. Trabalhamos os sete dias da semana, porque o nosso oficio envolve a preparação de aulas, provas e correção. Lidamos com alunos mal educados diariamente e com colegas de trabalho que só enxergam o ego. Em determinados locais de trabalho, o pior ambiente da escola é a sala dos professores. Os salários não são condizentes pelo tanto que trabalhamos. Todavia, usam o mesmo pretexto de sempre: “Vocês têm duas férias no ano”. Ainda bem que temos. Se não a tivéssemos, existiriam professores mais fora da escola cuidando da saúde mental e emocional do que dentro dela.

No decorrer do ano letivo, pais e responsáveis ficam esperando um deslize para procurar a escola e fazer um escarcéu. Agridem verbalmente, emocionalmente e fisicamente aquele que está ali para ensinar e, na maioria das vezes – educar o que não se consegue educar dentro de casa. A docência não se resume num 15 de outubro. Ela começa nos primeiros dias do ano escolar, quando os pais orientam seus filhos a importância da escola e o respeito ao professor. Depois, no decorrer dos bimestres e semestres, essas orientações devem ser enfatizadas para que possamos chegar ao final do ano e ouvir, pelo menos, um “Muito obrigado, professor, por me conduzir até aqui”. Nos quinze de outubro, todo mundo ama o professor. Até mesmo aquele que no dia catorze de outubro, proferiu palavras de baixo calão ao ser repreendido por uma atitude errônea. Pois é, há tanta hipocrisia neste dia que não posso mais romantizar a profissão como eu fazia antes. Eu também seria um hipócrita por não enxergar os descaminhos e a desvalorização que vem sofrendo a nossa classe trabalhadora.

Vou comemorar este quinze de outubro, quando não precisar mais trabalhar em várias escolas de cidades diferentes para ter um salário digno. Vou comemorar esta data a partir do momento que eu me sentir respeitado na sala de aula e me sentir protegido por leis que garantem a minha integridade física e emocional. Enquanto isso, eu exerço o meu trabalho com afinco, amor e prazer em lecionar, mas essas paixões não pagam as minhas contas e nem colocam comida na mesa. Se fôssemos pagos pelos sentimentos que temos em relação à profissão, seríamos poucos, porque poucos a amam e exercem com amor. Todo dia é dia de luta. Todo dia é dia do professor.