Um estudo recém-publicado na revista científica ‘Proceedings of the Royal Society B’ revelou que os crocodilos atuais possuem crânios mais planos e estruturalmente mais fracos do que os de seus ancestrais terrestres. A pesquisa, liderada pelas universidades de Bristol e Hull em parceria com pesquisadores brasileiros, contou com a participação da paleontóloga Sandra Tavares, do Museu de Paleontologia de Monte Alto.
A investigação comparou seis espécies de crocodiliformes – três modernas e três extintas. As formas fósseis, oriundas da Bacia Bauru e pertencentes ao clado Notosuchia, viveram no Cretáceo e possuíam crânios altos em forma de cúpula, diferentes das cabeças achatadas dos crocodilos de hoje.
O estudo mostra que esse achatamento craniano evoluiu para favorecer a natação e tornar os animais mais eficientes em ambientes aquáticos, confirmando parcialmente a antiga hipótese de que, ao se adaptarem à vida na água, os crocodilos trocaram força de mordida por características que melhoram a natação.
A partir de tomografias computadorizadas, os pesquisadores reconstruíram digitalmente os crânios e aplicaram simulações de engenharia para testar o desempenho de cada espécie durante a mordida. Os resultados mostraram que os crânios dos Notosuchia – totalmente terrestres – mostraram-se significativamente mais fortes e eficientes do que os dos crocodilos modernos.
“Quando os crocodilos se mudaram da terra para a água, seus crânios ficaram mais planos devido às pressões ambientais. Mas essa simplificação teve um custo: os crânios de crocodilo modernos experimentam até cinco vezes mais estresse ao morder do que seus parentes extintos que viveram em terra”, explicou o pesquisador principal Dr. Ananth Srinivas, agora pesquisador de pós-doutorado na Universidade do Alabama.
Segundo o grupo, a perda estrutural foi compensada com outras adaptações, como articulações cranianas reforçadas, maior musculatura na mandíbula e armadura óssea. Já os Notosuchia, por serem totalmente terrestres, desenvolveram formatos de crânio mais robustos
e especializados, permitindo desde hábitos herbívoros até o papel de predadores de topo.
A paleontóloga Sandra Tavares, que integra a equipe internacional, destaca a importância dos fósseis paulistas para a pesquisa. “Os materiais estudados vêm das rochas do Cretáceo da Bacia Bauru, um dos registros mais diversos da evolução dos crocodiliformes. São três grupos distintos, cada um com um tipo próprio de crânio e modo de vida”, explica.
Para Fabiano Iori, paleontólogo do Museu de Paleontologia de Uchoa, os resultados desta pesquisa revelam como os crânios de crocodilos evoluíram em resposta a novos ambientes e estilos de alimentação.
Participaram também do estudo Emily J. Rayfield e John A. Cunningham (University of Bristol), Jen A. Bright (University of Hull), Fresia Ricardi-Branco (Unicamp) e Ismar de Souza Carvalho (UFRJ).
